12.12.08
8.9.08
2.9.08
Carta na garrafa
São Paulo, 2 de setembro de 2008.
Cara Patequinha,
Ontem estava lembrando que nunca mais escrevi cartas. Tive vontade de te mandar uma, mas lembrei que não sei o seu endereço. Engraçado não saber algo sobre você. A impressão que tenho é que sei tudo o que seu silêncio pode me dizer. Talvez o tio Ciro esteja certo ao perguntar até quando de fato nos comunicamos. Porque eu sei dizer o que cada expressão sua significa, sei quando está feliz, triste, animada, desolada. Sei (na maioria das vezes) quando posso falar, quando calar, quando abraçar. Mas não sei o nome da sua rua (mesmo sendo uma freqüentadora assídua da sua casa).
Tem coisas que são difíceis mesmo de entender. Sabe o que mais acho complexo? Por que não podemos tirar a angústia do peito dos outros? Sei lá, é uma sensação tão grande de impotência. Queria poder resolver todos os problemas do mundo. Queria ser o Super Homem, mas o problema é que ele nunca se preocupou com os mortos na Guerra do Golfo ou com os famintos da África (ou mesmo do país dele). Acho que ele não era um bom super-herói. Coisa de homem. Quer mostrar o tempo todo pra quem gosta que ela está segura ao seu lado. E acaba esquecendo o mundo lá fora.
Sabe, queria mesmo que isso não fosse uma carta virtual. Queria papel e caneta. Que é pra você guardar numa caixinha e reler sempre que se sentir sozinha. Que é pra ver se pelo menos diminui essa coisa que você anda alimentando aí. Esse monstrinho tem que morrer, antes que ele te coma (sem nenhum tipo de pornografia aqui).
Tenho medo de falar demais. De acabar passando o limite da amizade e te dizendo o que eu penso contra o que você acha e sabe. Só você sabe, mas a gente sempre quer opinar, né? Acho que estão certos ao dizer que se conselho fosse bom, a gente vendia. Mas, mesmo que fosse de vender, eu te daria. Porque eu faço tudo que posso pra ver um sorriso seu (ok, isso foi lésbico).
Aliás, nós costumamos brincar que temos um relacionamento de 6 anos. Acho que só pode ser isso, porque temos algo que transcende a amizade de faculdade. Que transcende os limites da comunicação e etc. Somos transcedentais, não é?
Acho que isso se transformou em um depoimento de Orkut, mas sem limites de caracteres (o que pode ser um problema, porque eu poderia passar horas aqui escrevendo uma carta longuíssima sobre qualquer coisa). Por isso, julgo que seja esse o momento de terminar a minha carta eletrônica. A verdade é que em um mundo onde tudo é muito imediato e "em tempo real", é bom guardar algum tempo apenas para escrever tudo aquilo que não dá tempo de dizer... Apenas colocar em palavras o que meus gestos e meus silêncios não conseguem demontrar.
Beijos da sua querida amiga,
Pateca
Pateca
7.8.08
Once I wanted to be the greatest...
Do sol de cinco e meia da avenida paulista. em direção ao centro, ao seu centro, ela nem via. cantarolava mesmo com a incredulidade dos vendedores de sapato. vendedores que passarão a vida colocando sapatos em outros, sem saber o que é estar em lugares alheios. desde quando estava tão vulnerável? por vezes acontecia de ficar pra dentro. de ficar horas sem dizer um A que valesse a pena. sim, senhor. obrigada. tenha um ótimo dia. fique com o troco.
seu menino estava de volta. fato. estranho como ainda se incomodavam mutuamente. de notar a presença do outro, mas nunca agir nela. é dessa inércia que se mediam. mas não era ele, o que era mais esquisito ainda.
pisava em falso. não sabia onde tava se metendo. não sabia se queria saber. foi de um abraço que poderia durar horas que veio tudo aquilo. o eu gosto de estar com você, o eu gosto de você, o eu quero estar com você, o eu adoro ter essas nossas besteirinhas, o você é linda quando acorda. tudo muito no presente.
queria sonhar. tinha esse direito e tinha o direito de querer alguém que pudesse sonhar junto. ela sabia que nada do desejado nesses segundos se concretizaria, não era imbecil. mas e daí? não será proíbe de sonhar?
estava farta de racionalismos. era por isso que seguiu 2 quilômetros e voltou. ia ao centro, voltava dele, com a mesma disposição de quem podia e queria sonhar. ia sozinha. talvez em alguma calçada encontrasse uma criança que sonhasse junto com ela. e sorrisse. e fosse belo naqueles passos tímidos e incertos, de quem não sabe o que está fazendo. de quem sabe que quer fazer.
seu menino estava de volta. fato. estranho como ainda se incomodavam mutuamente. de notar a presença do outro, mas nunca agir nela. é dessa inércia que se mediam. mas não era ele, o que era mais esquisito ainda.
pisava em falso. não sabia onde tava se metendo. não sabia se queria saber. foi de um abraço que poderia durar horas que veio tudo aquilo. o eu gosto de estar com você, o eu gosto de você, o eu quero estar com você, o eu adoro ter essas nossas besteirinhas, o você é linda quando acorda. tudo muito no presente.
queria sonhar. tinha esse direito e tinha o direito de querer alguém que pudesse sonhar junto. ela sabia que nada do desejado nesses segundos se concretizaria, não era imbecil. mas e daí? não será proíbe de sonhar?
estava farta de racionalismos. era por isso que seguiu 2 quilômetros e voltou. ia ao centro, voltava dele, com a mesma disposição de quem podia e queria sonhar. ia sozinha. talvez em alguma calçada encontrasse uma criança que sonhasse junto com ela. e sorrisse. e fosse belo naqueles passos tímidos e incertos, de quem não sabe o que está fazendo. de quem sabe que quer fazer.
28.7.08
colocando os armários em ordem.
Não tem idéia do quanto precisei de você, querida. Mas acho que também precisava um pouco de mim para tentar entender tudo o que aconteceu. Desculpe se te deixei preocupada. Acho que deve ter levado um baita susto quando recebeu minha mensagem e minha voz de quem não está nem um pouco legal, mas finge estar tudo bem.
acho que encontrei algo de que não me perdôo, saca? Juro que quando vi, fiquei sem chão, querendo sair do apartamento, sair do mundo, fazê-lo parar, pois queria descer. Perdi o ar e quando ele voltou foi em soluço. Apertado, doído e mudo. Soluçando pra dentro, que é mais incômodo. sinto que, se essa insatisfação alheia persistir, eu que vou me acabar. é daquela confirmação do que todos dizem e que refutei enérgica, acreditando ser possível. é agora daquela negação de mim mesma. do todo que se constrói a cada dia. imagine que vc tenha uma foto bonita e duas pessoas seguram. uma delas enxerga que a foto foi um retrato (até belo, mas apenas uma representação) do que já foi. e as outras mãos vêem o que poderia ser, ou continuar a ser.
entende? sei que sim...
hoje a janela da minha avó me mostrou minha antiga casa. ela está mais bem cuidada (sempre diziam que terceiros cuidariam melhor do nosso teto – para o bem ou para o mal). o jardim está bonito, com flores rosas, sem apanhar do clichê somos-uma-família-feliz-com-um-belo-jardim. Parece um jardim de uma pessoa que gosta de jardins. e isso já me é suficiente. as janelas estavam fechadas, num anúncio de que aquela vida que vivi lá também. não pude espiar meu quarto antigo. fazendo as contas, cheguei a calcular 18 anos vividos inteiros e um ano e pouco meio vivido. o tempo está tão seco que o limoeiro que meu avô, assassinado há 13 ou mais anos, plantou naquela casa, naquele quintal tão descuidado e tão nosso, e agora bem cuidado, está com folha alguma.
hoje eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que o vento estava gelado, que minhas costas estavam duras, que meus olhos estavam mecânicos, que minha vida está no automático. e que havia um sol esquisito, que não chega a esquentar ninguém.
pensei que acordar muitas vezes no mesmo dia poderia me trazer mais vezes de volta ao que sentia. mas é nesse intervalo entre um sonhar e outro que me despedaço. não serei "a mais" em nenhum aspecto. tenho ciência da minha pequenez. certeza que passe muitas vezes como a pessoa papel de parede, que não marca sua infância, sua adolescência, passa incólume na sua transição para adulto e tampouco fica gravada na sua velhice, quando já nem se lembra de seus netos.
me dói todas as vezes que volto para casa velha porque eu fico pensando se algum dia quando tiver 90 anos não serei eu que esqueço nomes e confundo datas, me confundindo no meio daqueles não-idos e não-feitos, não-vividos e não-sentidos. no meio daquela angústia por viver todos os dias a mesma rotina parda. me dói saber que talvez quando ele tenha essa idade, nem se lembre de que gosto de doce de abóbora, daqueles bem melados e com gosto de infância. talvez nem ao menos se recorde de que eu passei em sua vida, enquanto eu conto aos meus netos tudo aquilo que ele me ensinou a doer.
acho que encontrei algo de que não me perdôo, saca? Juro que quando vi, fiquei sem chão, querendo sair do apartamento, sair do mundo, fazê-lo parar, pois queria descer. Perdi o ar e quando ele voltou foi em soluço. Apertado, doído e mudo. Soluçando pra dentro, que é mais incômodo. sinto que, se essa insatisfação alheia persistir, eu que vou me acabar. é daquela confirmação do que todos dizem e que refutei enérgica, acreditando ser possível. é agora daquela negação de mim mesma. do todo que se constrói a cada dia. imagine que vc tenha uma foto bonita e duas pessoas seguram. uma delas enxerga que a foto foi um retrato (até belo, mas apenas uma representação) do que já foi. e as outras mãos vêem o que poderia ser, ou continuar a ser.
entende? sei que sim...
hoje a janela da minha avó me mostrou minha antiga casa. ela está mais bem cuidada (sempre diziam que terceiros cuidariam melhor do nosso teto – para o bem ou para o mal). o jardim está bonito, com flores rosas, sem apanhar do clichê somos-uma-família-feliz-com-um-belo-jardim. Parece um jardim de uma pessoa que gosta de jardins. e isso já me é suficiente. as janelas estavam fechadas, num anúncio de que aquela vida que vivi lá também. não pude espiar meu quarto antigo. fazendo as contas, cheguei a calcular 18 anos vividos inteiros e um ano e pouco meio vivido. o tempo está tão seco que o limoeiro que meu avô, assassinado há 13 ou mais anos, plantou naquela casa, naquele quintal tão descuidado e tão nosso, e agora bem cuidado, está com folha alguma.
hoje eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que o vento estava gelado, que minhas costas estavam duras, que meus olhos estavam mecânicos, que minha vida está no automático. e que havia um sol esquisito, que não chega a esquentar ninguém.
pensei que acordar muitas vezes no mesmo dia poderia me trazer mais vezes de volta ao que sentia. mas é nesse intervalo entre um sonhar e outro que me despedaço. não serei "a mais" em nenhum aspecto. tenho ciência da minha pequenez. certeza que passe muitas vezes como a pessoa papel de parede, que não marca sua infância, sua adolescência, passa incólume na sua transição para adulto e tampouco fica gravada na sua velhice, quando já nem se lembra de seus netos.
me dói todas as vezes que volto para casa velha porque eu fico pensando se algum dia quando tiver 90 anos não serei eu que esqueço nomes e confundo datas, me confundindo no meio daqueles não-idos e não-feitos, não-vividos e não-sentidos. no meio daquela angústia por viver todos os dias a mesma rotina parda. me dói saber que talvez quando ele tenha essa idade, nem se lembre de que gosto de doce de abóbora, daqueles bem melados e com gosto de infância. talvez nem ao menos se recorde de que eu passei em sua vida, enquanto eu conto aos meus netos tudo aquilo que ele me ensinou a doer.
20.7.08
13.7.08
4.6.08
Naquele silêncio
Não queria ouvir que tudo ficaria bem ou que o tempo resolve tudo. Sabia e não gostava. E foi naquele olhar que dizia tudo e, ao mesmo tempo, nada dizia de efetivo, que encontrou a paz. Sempre foi assim, nunca precisaram dizer uma palavra sequer. Conseguiu até sorrir, pensando que poderia viver daquele olhar singelo, pequeno, cheio de significações. Enquanto se achava o pior ser humano existente, tentou entender pq estava quase se sentindo bem. E entendeu que 1+1 pode ser muito mais que só 2. E que amar é o que menos importava. O que importava, na verdade, era saber que sempre poderia ter aquele olhar, mesmo que o pra sempre possa acabar daqui a 5 segundos.
Moral da história: nada faz sentido sem aquele silêncio.
Moral da história: nada faz sentido sem aquele silêncio.
1.6.08
Engraçado é ver o motivo por não estarmos: ser mulher demais pra mim. Seus chorinhos e desejos irrefreáveis de discutir nosso relacionamento - mesmo que nenhum saiba exato definir estes encontros esporádicos. São ótimos - por que não? Aí me liga quando tocou aquela música no seu mp3 player, um acaso lúdico e oportuno. Como se não tivesse passado as últimas horas tentando encaixar as melodias nos megabytes. Talvez seja só eu que não suporte mais seus nhenhenhens, querendo me falar o quão magnífico sou. Deve ser porque comprei na padaria uns 50g de cinismo. É, o problema não é você, amor. O problema sou eu.
17.5.08
da porta, os passos de quem não volta
Sinto que a vida inteira vou esperar que ele abra a porta e olhe para o chão, sem graça. E da voz surjam breves palavras de quem não sabe colocá-las ainda muito bem. Depois, que diga que tudo foi uma brincadeira de péssimo gosto e que está tudo bem - e vai ficar tudo bem. mas é aí durante as madrugadas que acordo com uma respiração descompassada e descubro que é a minha. saio pela porta de madeira, mas não a conheço. nem sei onde estou. dou meia dúzia de passos ,todos quase no mesmo lugar, e fico trinta segundos tentando entender por que você conversa comigo mas nunca está aqui no quarto ao lado quando acordo. volto para a cama trinta quilos mais pesada, e espremo os olhos para ver se algo muda. quando abro já é de manhã e os olhos inchados são só uma pincelada neste quadro bonito. e nem por isso feliz.
6.5.08
Atenção: parte ficcional parte do real!
Pelos idos de 1940 e poucos, famílias imigrantes se escondiam à noite em suas plantações em busca de um lugar seguro para reunir pálpebras. Lá, pequeninos queriam proteger seus pais e a si de uma ameaça que estava por vir - o que perdia a importância para quando. Vez ou outra, os makegumis, derrotistas, encontravam nos toko-tai - ramificação extremista da organização secreta Shindo Renmei - sua última visão da terra que prometia uma nova vida. Já os kachigumis, vitoristas, ganhavam a oportunidade de continuarem suas vidas por acreditar na vitória japonesa na guerra e não questionar a autoridade do imperador. 23 desapareceram kachigumicamente. Outros 150 ficaram feridos. E a história no novo país se tornava uma batalha diária contra o clima, contra o povo, contra os costumes e contra eles mesmos.
Anotação mental: pesquisar Shindo Renmei.
Anotação mental: pesquisar Shindo Renmei.
19.4.08
a sabotagem.
- dois.
Ahn? Ah. Quer me explicar. E eu não quero. Quer me dar uns dez motivos e eu preciso de motivo algum. Você tá é cagando de medo, eu bem sei. É porque é um besta que acredita em previsões. Até leva guarda-chuva quando a moça-simpática-loira-e-sorridente diz que as manhãs terão um dia-sol ou dia-chuva. Lê seu horóscopo logo que entregam seu jornal de gente séria de todos os dias. Mas diz que não acredita, afinal, você é cético como um capricorniano. E ateus, graças a deus. E não está afetado por estória alguma. Só pela história. É, eu sei.
dá um avanço no botão de tempo. coloca lá no futuro (mesmo que o futuro seja presente no mundo de suposições). Dá uma pausa e vê que ainda anda com os pés para dentro. E não tem ortopedia que conserte este defeito de sua falta de coragem. Não tô pedindo para que me ame, não, não. Só estou segurando sua mão e, se não estiver dentro dos cinco minutos seguintes, quem sou eu para questionar. Quem é você para não tentar?
Ahn? Ah. Quer me explicar. E eu não quero. Quer me dar uns dez motivos e eu preciso de motivo algum. Você tá é cagando de medo, eu bem sei. É porque é um besta que acredita em previsões. Até leva guarda-chuva quando a moça-simpática-loira-e-sorridente diz que as manhãs terão um dia-sol ou dia-chuva. Lê seu horóscopo logo que entregam seu jornal de gente séria de todos os dias. Mas diz que não acredita, afinal, você é cético como um capricorniano. E ateus, graças a deus. E não está afetado por estória alguma. Só pela história. É, eu sei.
dá um avanço no botão de tempo. coloca lá no futuro (mesmo que o futuro seja presente no mundo de suposições). Dá uma pausa e vê que ainda anda com os pés para dentro. E não tem ortopedia que conserte este defeito de sua falta de coragem. Não tô pedindo para que me ame, não, não. Só estou segurando sua mão e, se não estiver dentro dos cinco minutos seguintes, quem sou eu para questionar. Quem é você para não tentar?
9.4.08
Sorria, você está sendo filmado
Vigias ficam apenas na parte interna do pátio. Estendem o braço, procurando alguma ameaça invisível àqueles olhos treinados. Os cachorros latem sem cessar, são grandes e feios. As pesssoas passam sem rir, são pequenas e sem graça. Conversam baixo, falam num sussurro culpado de criança que esqueceu de sua infância. Os maridos vêm logo, antes mesmo da suposta permissão de chegar. Ali, sei que palavras recebidas e respondidas são suspeitas, ligações são, no mínimo, desconfiáveis. Os sorrisos, medicados exatamente de acordo com a receita. Engulo todo o prazer de desexistir na manhã sem café. Não posso beber, já que cada gota é contada a partir de uma cota pré-determinada por forças superiores. A minha já foi no dia seguinte de nossa despedida, quando o café do boteco se misturou com toda aquela frescura do expresso. Do momento em que te beijei como todos os dias e te desejei boa sorte no que viria àquele em que meu gostar dissipou e virou sabe-se-lá-o-quê, já percebia que nesta brincadeira de tomar conta, nosso gosto já se misturou. Mas há ainda câmeras para registrar o movimento, só para segurança. Só por segurança.
30.3.08
De longe, seca. Por ter te negado tanto, logo não posso mais sentir. E teus cabelos soltos, tua voz rouca e os olhos inchados por não ter dormido direito e vivido errado nas semanas últimas, compõem um cenário lúdico, belo e montado. De longe não possui a naturalidade que era particular tua. Agora só o que vejo são tuas frases montadas e teus sentimentos não sentidos. E que haja um terceiro. Se há não importa de nada. Mas sempre há um terceiro que não soubemos ser. Fingimos muito bem, mas não conseguimos nos encaixar tanto neste papel mais complexo e bonito que nós. Os atores, os hipócritas que encenam uma vida, os imbecis que editam suas falas a cada instante e colocam mil intenções na falta de intenção, todos eles estão juntos. São mais e maiores que os vilões, os mocinhos, os figurantes - as criações coletivas. Cada um construiu para si uma possibilidade tão bonita que parece até real. Estamos todos condenados a viver este papel a cada segundo e chegará um dia que nem da própria entonação nos recordaremos. Haverá um dia em que toda esta encenação chegará a um fim. E virão os
aplausos esparsos deste espetáculo de horrores nos dizer que iremos todos para casa. E nenhum irá dormir de maneira plena pois personagem algum pode descansar. Fine. 20.3.08
Lusco-fusco
Dez para seteNa fila, Ana Luísa repensou. Já seria a décima vez naquela quinzena que ia ao parque. E ao final de tudo, havia de ir nas xícaras gigantes. Elas rodavam, rodavam, até esquecer seu nome. Analu gostava. Vez ou outra vomitava depois. Mas passa, dizia. Sua primeira lição de adulto enquanto criança. Tudo passa. Depois de passar mal, iria para casa tomar um banho. Tirar aquele suor do pequenino corpo e se lambuzar de água.
Cinco para sete.
Analu, já impaciente, batia os sapatos brancos de ponta arrendondadas no chão de terra. Levantava poeira e fazia contornos em sua perna - uma calça momentânea. Analu achou graça e sorriu.
Sete horas.
Dez minutos pra gente pequena é um mundo. Dez minutos na fila então era a própria eternidade dos parques que nunca vêm.
Era a próxima. Escolheu a xícara mais bonita, a mais longe da entrada, porque as pessoas preguiçosas não iriam até lá e seria mais fácil girar. Mesmo sabendo que iria tudo voltar prum mesmo lugar, ficando mais longe da saída, mais tempo teria.
Sete e dois.
O brinquedo começou a engrenar, lento. Quando atingiu a velocidade que Nalu considerava ideal, o parque inteiro se acendeu. Já começava a escurecer e as xícaras ficaram todas bonitas, iluminadas, coloridas. A menina sorriu de novo. Eita dia gostoso!
Sete e dois e meio.
Fechou os olhos. Sentiu o vento contra seu rosto de porcelana desgastada. Já na infância aparentava mais do que tinha. O contraste entre sua pequenez e velhice espantava os mais distraídos. Não tava nem aí. Só queria mesmo girar. Giraaar.
Sete e quatro.
O cachorro-quente de quinze minutos atrás começou a conversar com ela. Ele queria voltar. Ela não queria deixar.
Sete e cinco.
Pára! Pára que eu quero descer.
Sete e cinco e seis.
Não, não parou. A menina, aliviada, deixou coisas para trás. E para os lados. E para frente. E cima e para baixo.
Sete e cinco e meio.
As xícaras já lentas paravam. Pessoas desciam felizes, rindo e querendo entrar na fila de novo. Lu não. Voltaria pra casa, afinal.
Fez seu caminho habitual, desviando de árvores, cachorros e pedras. Chegou em casa, largou os sapatos no tapete da sala e se jogou no sofá. Está tudo bem, sua mãe perguntara. Sorrindo, respondeu que sim, sim, estava. Ela só queria mesmo uma boa xícara de chocolate quente de mãe. A mãe trouxe na sua xícara favorita, com biscoitos de chocolate. Gostou do parque, perguntou a mãe. E Analu ela já dormia, pernas para fora do sofá, mãos caídas, quase derrubou o líquido no chão. A mãe tirou as coisas da sala e levou a menina para o quarto. No caminho, achou um papel de bala-juquinha que Analu guardaria durante anos até criar coragem de jogar fora tudo aquilo que lhe era desnecessário.
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